Kevin Smith gosta de brincar com os gêneros. Em “Dogma” (1999), o diretor avacalhou com os estigmas da Igreja Católica. Já em “O Império (do Besteirol) Contra Ataca” (2001) os road movies foram satirizados trazendo os personagens Jay e Silent Bob, esse último interpretado pelo próprio diretor. No seu trabalho anterior, “Pagando Bem Que Mal Tem” (2008), foi a vez de escrachar com o submundo dos filmes eróticos. Agora, os longas policiais entram na mira do cineasta em “Tiras em Apuros” que a Warner Bros. lançará direto para o mercado do home-video.

Fanboy de carteirinha, Smith sabe diálogos de filmes de cor e suas obras sempre trazem referências de produções clássicas (outras nem tanto) e protagonistas “losers” que no final provam o seu valor. No novo longa não é diferente. Já nos primeiros minutos vemos a dupla de tiras interpretada pelo astro Bruce Willis (Substitutos) e o comediante Tracy Morgan (Super-herói – O Filme) desferirem uma porção de frases famosas do cinema durante um interrogatório. Atente para o bordão dito por Willis na franquia “Duro de Matar”. Hilário!

De posse das informações, eles caem campo para prenderem um traficante de drogas. Mas os policiais estão mais preocupados com seus problemas pessoais do que na operação e a missão acaba como um fracasso colossal. Ambos são afastados de seus cargos e não receberão o salário por um mês.

Porém, o casamento da filha de Jimmy Monroe (Willis) está próximo e ele precisa de dinheiro para pagar os gastos. Duro, ele decide vender um antigo e valioso card de beisebol, mas é roubado pelo chatíssimo Dave (Seann William Scott, o Stifler de “American Pie”), um bandidinho praticante de parkour (esporte em que o indivíduo sobe muros e telhados, por exemplo, sem ajuda de equipamentos). Sem distintivos e sem grana, Jimmy e Paul Hodges (Morgan) entram sem querer em uma enorme teia de eventos que os colocarão cara-a-cara com o traficante que eles perseguiram no início do filme.

Os clichês dos filmes policiais estão todos lá e de forma bem exagerada (quase caricata). Logo de cara, temos a dupla protagonista formada por um branco e um afro-descendente como em “Máquina Mortífera”. O vilão é um traficante estrangeiro, no longa é um latino, que leva ao máximo o estereótipo da raça tanto no sotaque quanto nas feições de “bad guy”.

A trilha sonora também acompanha esse ritmo e temos algo que nos lembra “Um Tira da Pesada”. A música chega a incomodar em alguns momentos, mas casa com a paródia proposta pelo diretor.

Os momentos de face-off (arma cara-a-cara) e tiroteios, a coadjuvante bonita (Ana de la Reguera) que deve ser salva pelos mocinhos, a dupla de policiais rival que aparenta ser bom no que faz. Todos esses clichês também estão presentes propositalmente, mas não de forma inovadora (ou mesmo engraçada) o que acaba prejudicando bastante o longa.

Um dos pontos altos é a subtrama que mostra Paul tentando descobrir se a sua esposa está lhe traindo com o vizinho. Ele chega a ligar para esposa durante uma operação de disfarce ou em uma tocaia e fica louco quando ela não atende o telefone. A culpa pelo divertimento nesses momentos se deve unicamente ao roteiro já que o ator Tracy Morgan está bem mediano.

“Tiras em Apuros” é interessante pelas referências à cultura pop que é a marca registrada do diretor Kevin Smith. Com um elenco pouco inspirado, a brincadeira que poderia ter dado certo acaba como uma diversão mediana e típica para ser vista em DVD/Blu-Ray.

____________________________________________________________________________

Título Original: Cop Out
Direção: Kevin Smith
Elenco: Seann William Scott, Bruce Willis, Jason Lee, Adam Brody, Michelle Trachtenberg, Tracy Morgan, Mark Consuelos
Duração: 107 min
Ano de Produção: 2010
Estréia: direto para home-video (sem previsão)
Nota:

sexta-feira, 23 de julho de 2010 às 11:34 Postado por Leonardo Peixe 0 Comments

O personagem Predador é como um vilão de filme de terror: todo mundo adora odiar. Criado em 1987 para o filme “O Predador”, o seu visual aterrador e hi-tech criado pelo saudoso mago dos bonecos eletrônicos Stan Winston ganhou logo de cara (e que cara!) a admiração dos fãs de ficção científica. A atenção que a raça alienígena chamou foi tanta que, além de estampar o título de sua franquia (o que não acontece com os vilões de terror), quando entra em cena consegue desviar os olhos do espectador até de astros do calibre de Arnold Schwarzenneger.

No recente “Predadores”, como sugere, há não apenas um monstrengo com cara de caranguejo, mas quatro e junto com eles uma espécie de raça de cão predador. Com tantos E.T’s feiosos em tela era pra ficar difícil prestar atenção no bando de atores que serão meras caças para as criaturas. Mas não é bem assim...

Dirigido pelo cineasta com nome de predador Nimród Antal (Temos Vaga), o longa tem a dura missão de restaurar a franquia que teve uma fraca continuação estrelada por Danny Glover em 1990 e dois crossovers lamentáveis com as baratas especiais da série “Alien”. Junto com o produtor Robert Rodriguez (diretor de “Planeta Terror”), a equipe teria que resgatar toda a atmosfera de caça que colocava o homem contra o desconhecido e transformava o ambiente aberto da selva em um lugar claustrofóbico do primeiro filme. Realmente, uma tarefa difícil...

Para isso, a trama tenta reapresentar o Predador e começa jogando o público literalmente de pára-quedas junto com o personagem de Adrien Brody (King Kong) em uma estranha floresta. Junto com o ator, que interpreta um mercenário bad ass, vamos descobrindo como ele veio parar naquele lugar. Logo ficamos sabendo que ele não veio sozinho e forma-se um grupo com ex-militares (um deles é a brasileira Alice Braga), um traficante latino (Danny Trejo), um membro da Yakuza (Louis Ozawa Changchien), um líder de gangue africana (Mahershalalhashbaz Ali), um procurado pelo FBI (Walton Goggins) e um médico (Topher Grace). Ufa!

Lenta e penosamente, os personagens contam suas histórias e fazem o reconhecimento do local onde caíram percebendo que estão em outro planeta. Além de abduzidos, o mercenário de Brody revela que o grupo está sendo observado, perseguido e brevemente serão caçados. Após essa longínqua abertura finalmente começa o que realmente importa, os Predadores aparecem!

Mas espera lá! Os bichos aparecem, mas antes vem os cães predadores e mais um monte de conversa chata. É, os verdadeiros protagonistas vão fazer o seu show somente perto do final do filme. Assim, quem já conhece a franquia tem que ficar sabendo novamente que os alienígenas são peritos em caça, que atiram com armas a laser, que têm visão térmica, que se camuflam no ambiente e que são feios pra caramba!

Tudo isso em meio a um monte de clichê pra lá de desgastados como as balas da arma da mocinha acabar em um momento crítico, perguntar “quem é você” em um momento já esperado ou a tentativa de susto aumentando o volume da trilha sonora. Falando em música, somos obrigados a esperar o ataque dos feiosos sob uma torturante e repetitiva música de background. Assim, o filme que era para dar um novo ar à franquia acaba usando ingredientes velhos.

As novidades que Antal e Rodriguez reservam são poucas. O ambiente de caça sai da Terra para outro planeta e coloca os humanos com mais um problema: como voltar para casa. Porém, no lugar de resolverem a tal dificuldade, os realizadores decidiram jogar isso mais para frente. Também há um novo tipo de Predador ainda mais robusto e feroz que os já apresentados na série como se a raça fosse divida em tribos hierárquicas. Um ponto interessante, mas pouco explorado. Ah! E tem os cães predadores que são... cães ferozes de focinho feio... e só...

“Predadores” não adiciona muito à série, mas também não é uma catástrofe retumbante como “Aliens VS Predador”. O uso excessivo de clichês e o foco demasiado nos personagens humanos estragam o que poderia ter sido uma retomada digna dos E.T.’s de dread em grande estilo. Se você prestar atenção direitinho pode perceber até uma mensagem subliminar de xenofobia em que somente os estadunidenses são espertos o suficiente para escapar dos bichanos. Mas isso só aumenta a nossa vontade de ver os predadores caçando os humanos bocós remanescentes liderados por Adrien Brody. Pena que até isso não acontece. No final, os predadores acabam sendo abafados por um elenco não tão estelar.

____________________________________________________________________________


Título Original: Predators
Direção: Nimród Antal
Elenco: Adrien Brody, Topher Grace, Alice Braga, Walton Goggins, Oleg Taktarov, Laurence Fishburne, Danny Trejo, Louis Ozawa Changchien
Duração: 107 min
Ano de Produção: 2010
Estréia: 23 de julho de 2010
Nota:

Karatê Kid – A Hora da Verdade” foi responsável por uma verdadeira mania entre os adolescentes. Lançado em 1984, o longa lotou não apenas as salas de cinema como as academias de artes marciais com jovens querendo aprender a arte ensinada pelo Sr. Miyagi (o saudoso Pat Morita). A produção também catapultou a carreira de Ralph Macchio que encarnou o discípulo Daniel-San e colocou Morita como personalidade cult. O sucesso do filme rendeu mais três continuações e uma série animada para a TV.

Vinte e seis anos depois (e uma crise de criatividade em Hollywood), eis que a Sony Pictures resolve fazer um remake mudando o elemento do Karatê para o Kung Fu. No elenco, o filho do astro Will Smith, Jaden Smith, e o mestre da ação Jackie Chan teriam a grande responsabilidade de recriar a química de Macchio e Morita. Muita gente (inclusive eu) duvidou do projeto que não se decidia se levaria o título original ou mudaria para “Kung Fu Kid”.

Eis que o longa pipoca nas telonas chamando-se “Karate Kid” para buscar nas mais remotas lembranças da galera de vinte e tantos anos a referência ao clássico. Mas durante a projeção é possível ver o imenso respeito que os realizadores tiveram ao material de origem e que Chan e Smith conseguiram com louvor reproduzir a cumplicidade e amizade do mestre com o discípulo.

A nova versão conta a mesma história do filme antigo. Um jovem que é perseguido pelos valentões da escola se cansa de apanhar e, com a ajuda de um velho lutador, decide enfrentar seus oponentes em um torneio de artes marciais. Os fãs da franquia irão se deliciar com a paródia da habilidade de Miyagi em pegar moscas com o hashi (o pauzinho usado pelos orientais para comer – sem duplo sentido, por favor). Também vão encontrar referências às lições do “encera carro” e “lixa assoalho”. Até o clássico chute da águia de Daniel-San será lembrado de forma diferente em algum momento.

Contudo, muitos novos detalhes foram acrescentados no filme de Harald Zwart (A Pantera Cor-de-Rosa 2) que conferem a obra um upgrade e, por falta de uma palavra melhor, refresh do anterior. Primeiro, o nome dos protagonistas foram mudados. Daniel-San agora é Xiao Dre e Sr. Miyagi é Sr. Han. Parece ser nada demais, mas a alteração ajuda o público a acolher melhor os personagens.

Outro fator interessante é a mudança do local da história dos Estados Unidos para a China. A obrigação de se inserir em uma cultura bastante diferente, aprender uma nova língua e ter que fazer amizade em uma cidade estranha ajuda a aumentar o clima de deslocamento do pequeno Dre Parker. Claro que a fotografia de Pequim também dá um tempero visual.

A escolha por um ator mais jovem que no longa original também compõe o cenário de exclusão do protagonista uma vez que ele depende da mãe para fazer certas coisas. E, aos 12 anos, não há mico maior que sair com a garota que você está fim com a mãe ao lado.

Aliás, a relação mãe e filho é pouquíssima explorada. Tal fator poderia dar até mais dramaticidade ao longa. A indicada ao Oscar de Melhor Atriz por “O Curioso Caso de Benjamin Button” Taraji P. Henson interpreta Sherry Parker, mãe de Dre. Ela deveria ter sido melhor aproveitada e acaba limitada a pequenas aparições. Em adição, o elenco de apoio com atores chineses também não ajuda muito.

Entretanto, Jackie Chan faz um ótimo trabalho. O astro faz uma das atuações mais convincentes de sua carreira. Comedido, ele dá o tom dramático correto para Sr. Han. Chan brilha na cena em que Dre o encontra dentro de um carro quebrado em que é revelado o passado do seu personagem. A sequência se estende até uma pequena e bela luta entre professor e o aluno. Sem dúvidas essa é a uma das partes mais emocionantes do longa.

No final, Jackie Chan conquista um pouco da admiração de quem sempre duvidou de sua capacidade de atuação. Já Jaden Smith mostra que está trilhando o caminho do papai famoso fazendo do seu Dre um cara cheio de marra e conquistador.  O jovem ator demonstra que realmente se preparou para lutar Kung Fu e faz ele mesmo algumas cenas de ação. Talvez, tenha pegado algumas dicas com o parceiro de cena. ;)

“Karate Kid” irá agradar tanto quem acompanhou as aventuras de Daniel-San nos idos anos oitenta quanto a nova geração. O filme, contudo, não deve virar uma verdadeira febre como o original. Afinal, o Kung Fu já está sendo explorado há décadas na indústria do cinema. Embora duvide que a franquia ganhe uma nova série animada, torço para que tenha ao menos uma continuação.

____________________________________________________________________________

Título Original: The Karate Kid
Direção: Harald Zwart
Elenco: Jackie Chan, Jaden Smith, Taraji P. Henson, Wenwen Han
Duração: 140 min
Ano de Produção: 2010
Estréia: 27 de agosto de 2010
Nota:

Pense em alguma animação infantil lançada nos cinemas que traga crianças como protagonistas. Na Disney temos princesas e heróis jovens. Com a Pixar vemos robôs, brinquedos e super-heróis. Já a Dreamworks apresenta animais e um ogro verde.  Nada de crianças, né?

A resposta vem do outro lado do mundo. O diretor japonês Hayao Miyazaki prova (mais uma vez) que a garotada tem um enorme potencial de carregar um longa animado cheio de emoção em “Ponyo – Uma Amizade que Veio do Mar”.

Em 1988, com “Meu Amigo Totoro”, Miyazaki já mostrava a predileção por contar histórias de fantasia sob o olhar curioso e imaginativo da criança. O reconhecimento mundial pelo modo peculiar e poético de suas animações só veio em 2001 com o aclamado “A Viagem de Chihiro” que ganhou o Oscar de Melhor Animação em 2003. O filme era uma espécie de “Alice no País das Maravilhas” que seguia uma garota de 10 anos em um mundo fantástico com personagens folclóricos do Japão.

No seu novo trabalho, o cineasta também faz referência a outro clássico da literatura infantil, ”A Pequena Sereia” de Hans Christian Andersen. Nele, Ponyo é uma princesa-peixe de cinco anos que escapa do navio submerso de Fujimoto, seu pai super-protetor. Ela vai parar em uma pequena cidade litorânea onde conhece Sosuke que acolhe a peixinha. O amor inocente entre os dois personagens cresce e, durante um pequeno acidente, Ponyo acaba provando um pouco do sangue do garoto.

A amizade entre eles é interrompida quando Fujimoto resgata a sua filha levando-a para o fundo do mar. Mas o DNA do menino se funde ao da princesa que se transforma em uma garota humana. Obstinada a reencontrar Sosuke, Ponyo foge mais uma vez para a superfície e traz consigo um tsunami que irá naufragar a cidade e poderá destruir o mundo.

Os personagens são apresentados com uma bela delicadeza poética e os laços de relação construídos entre eles são simplesmente verdadeiros. Impossível não encher os olhos com as cenas coloridas das duas fugas de Ponyo ou não se divertir com as velhinhas do asilo onde a mãe de Sosuke trabalha.

O visual do longa é de encher os olhos das crianças e também dos adultos. Em meio a tantos recursos de animação computadorizada, Miyazaki ainda faz questão de trabalhar à moda antiga com desenhos feitos a mão e pintados com tinta e pincel.

Além da técnica e dos protagonistas infantis, ele deixa outra marca sua impressa na película: o túnel. Assim como em “A Viagem de Chihiro”, o elemento serve para marcar a transição ou crescimento do protagonista em que ele enfrenta um dilema importante.

Apesar de toda a beleza visual e emocional, a animação possui suas falhas como a mãe do garoto aceitar tranquilamente uma menina que veio do mar sem muito questionamento. Ou a história de fim do mundo jogada às pressas no final. Contudo, isso não coloca em cheque o conjunto da obra.

“Ponyo – Uma Amizade que Veio do Mar” é daqueles filmes que agradam a família e faz refletir sobre o verdadeiro amor e de aceitar a pessoa amada do jeito que ela é. Embalado por um espetáculo de cores, Hayao Miyazaki ensina novamente que através do olhar das crianças é que podemos observar melhor a pureza e a fantasia que estão ao nosso redor.

____________________________________________________________________________

Título Original: Gake no Ue no Ponyo
Direção: Hayao Miyazaki
Elenco: Yuria Nara, Hiroki Doi, Jôji Tokoro, Tomoko Yamaguchi
Duração: 101 min
Ano de Produção: 2008
Estréia: 23 de julho de 2010
Nota:

sexta-feira, 9 de julho de 2010 às 20:25 Postado por Leonardo Peixe 6 Comments

O ogro verde mais famoso das telonas está volta. “Shrek Para Sempre” marca o final das aventuras do personagem dublado por Mike Myers (Bastardos Inglórios) iniciada em 2001. Durante todos esses anos, acompanhamos Shrek encontrar o amor, casar, conhecer a família da esposa, ter filhos e construir laços de amizades eternos. Então, o que ainda falta contar da vida deste ogro de sorte?

No quarto filme, o nosso herói está se sentindo aprisionado à rotina do casamento. Cuidar da casa e dos filhos e, em meio a isso, ser uma celebridade local está lhe privando do que ele mais adora: ser um ogro. Na festa de um ano de seus trigêmeos, Shrek acaba surtando e discute com sua esposa Fiona (Cameron Diaz).

Furioso, ele entra floresta adentro e acaba esbarrando com o ganancioso Rumpelstiltskin (Walt Dohrn). O baixinho propõe um acordo em que Shrek poderá ter um dia sem a família e os amigos por perto e fazer o que quiser. Em troca, o verdão terá que ceder um dia de sua infância. Ao assinar o contrato, ele vai parar em uma realidade em que nunca existiu, a princesa Fiona não foi salva e que Rumpel é o soberano déspota do reino de Tão Tão Distante.

O grande problema da trama é que ela recorre ao velho clichê do “e se isso tivesse acontecido” e culmina no “foi tudo irreal”. No final das contas, somente o personagem principal evolui. Burro (Eddie Murphy), o Gato de Botas (Antonio Banderas) e os outros amigos literários que brilhavam nos primeiros filmes fazem meras figurações de luxo.

As novidades ficam por conta do exército de bruxas inspiradas em “O Mágico de Oz” (1939) e da tropa de ogros que mostra que há mais seres como Shrek espalhados por aí. O vilão Rumpelstiltskin também é um dos novos personagens e talvez seja o inimigo mais ameaçador da franquia.

No primeiro longa, Lord Farquaad foi eclipsado pela porção de figuras interessantes que recheavam a história. Já no segundo capítulo, a Fada Madrinha e o Príncipe Encantado eram mais engraçados que ameaçadores. Enquanto na aventura anterior temos a volta de Encantado como antagonista principal e que não teve a força de conduzir uma trama convincente.

Apesar de ter seus momentos cômicos, Rumpel é essencialmente um mau caráter. Mentiroso, ganancioso e mesquinho, ele usurpa o que cada um tem de melhor com seus acordos desonestos. A desgraça alheia é seu trampolim para o sucesso. Enfim os roteiristas Josh Klausner e Darren Lemke marcam ponto por manterem a má índole do duende criado pelos irmãos Grimm em um conto publicado em 1812.

O longa também peca pelo excesso de inimigos. Além das bruxas e de Rumpel, há o Flautista de Hamelin, personagem folclórico que ganhou também teve um conto dos Grimm. Ele rende momentos engraçados como a hipnose dos seres através da flauta, mas é bastante subutilizado.

As excelentes referências ao mundo POP que se destacaram principalmente no primeiro e segundo filme são apenas um adereço a mais no novo longa da série. Antes havia referências a filmes como “A Pequena Sereia”, “E.T. – O Extra Terrestre” e “A Um Passo da Eternidade” e o humor politicamente incorreto embalado por “YMCA” do Village People,“Funktown” do Lipps Inc. e até mesmo “Livin’ La Vida Loca” de Rick Martin.

Agora, o ogro realmente parece que foi domesticado e toda a esculhambação com os personagens da literatura, de filmes infantis e com a cultura POP em si parece certinha demais. Transformaram Shrek em produto tipicamente para a garotada.

Ao subir os créditos, fica a sensação que tivemos um divertimento familiar, mas que parece uma realidade alternativa do próprio Shrek. O deboche da franquia foi substituído por uma postura de praxe em qualquer longa infantil. Há toda uma mensagem sobre o valor da família e da verdadeira felicidade. Mas o irônico disso tudo é que, anteriormente, mesmo o personagem não estando dentro dos padrões convencionais de um tipo heróico passava o recado à sua maneira.

Ao menos, “Shrek Para Sempre” pode se gabar de ser melhor que o filme anterior. Porém, os adultos que curtiram o ogro verde por anos vão ficar um pouco desapontados com o desfecho das suas aventuras. Com a batida história de “realidade alternativa”, parece que inclusive os produtores achavam que a história contada no quarto capítulo tinha que ser mostrada apenas com fins lucrativos...

____________________________________________________________________________

Título Original: Shrek Forever After
Direção: Mike Mitchell
Elenco: Mike Myers, Cameron Diaz, Eddie Murphy, Antonio Banderas
Duração: 93 min
Ano de Produção: 2010
Estréia: 09 de Julho de 2010
Nota:

    Perfil

    Minha foto
    Jornalista especialista em cultura pop principalmente cinema.

    Frequentadores