Pense em alguma animação infantil lançada nos cinemas que traga crianças como protagonistas. Na Disney temos princesas e heróis jovens. Com a Pixar vemos robôs, brinquedos e super-heróis. Já a Dreamworks apresenta animais e um ogro verde.  Nada de crianças, né?

A resposta vem do outro lado do mundo. O diretor japonês Hayao Miyazaki prova (mais uma vez) que a garotada tem um enorme potencial de carregar um longa animado cheio de emoção em “Ponyo – Uma Amizade que Veio do Mar”.

Em 1988, com “Meu Amigo Totoro”, Miyazaki já mostrava a predileção por contar histórias de fantasia sob o olhar curioso e imaginativo da criança. O reconhecimento mundial pelo modo peculiar e poético de suas animações só veio em 2001 com o aclamado “A Viagem de Chihiro” que ganhou o Oscar de Melhor Animação em 2003. O filme era uma espécie de “Alice no País das Maravilhas” que seguia uma garota de 10 anos em um mundo fantástico com personagens folclóricos do Japão.

No seu novo trabalho, o cineasta também faz referência a outro clássico da literatura infantil, ”A Pequena Sereia” de Hans Christian Andersen. Nele, Ponyo é uma princesa-peixe de cinco anos que escapa do navio submerso de Fujimoto, seu pai super-protetor. Ela vai parar em uma pequena cidade litorânea onde conhece Sosuke que acolhe a peixinha. O amor inocente entre os dois personagens cresce e, durante um pequeno acidente, Ponyo acaba provando um pouco do sangue do garoto.

A amizade entre eles é interrompida quando Fujimoto resgata a sua filha levando-a para o fundo do mar. Mas o DNA do menino se funde ao da princesa que se transforma em uma garota humana. Obstinada a reencontrar Sosuke, Ponyo foge mais uma vez para a superfície e traz consigo um tsunami que irá naufragar a cidade e poderá destruir o mundo.

Os personagens são apresentados com uma bela delicadeza poética e os laços de relação construídos entre eles são simplesmente verdadeiros. Impossível não encher os olhos com as cenas coloridas das duas fugas de Ponyo ou não se divertir com as velhinhas do asilo onde a mãe de Sosuke trabalha.

O visual do longa é de encher os olhos das crianças e também dos adultos. Em meio a tantos recursos de animação computadorizada, Miyazaki ainda faz questão de trabalhar à moda antiga com desenhos feitos a mão e pintados com tinta e pincel.

Além da técnica e dos protagonistas infantis, ele deixa outra marca sua impressa na película: o túnel. Assim como em “A Viagem de Chihiro”, o elemento serve para marcar a transição ou crescimento do protagonista em que ele enfrenta um dilema importante.

Apesar de toda a beleza visual e emocional, a animação possui suas falhas como a mãe do garoto aceitar tranquilamente uma menina que veio do mar sem muito questionamento. Ou a história de fim do mundo jogada às pressas no final. Contudo, isso não coloca em cheque o conjunto da obra.

“Ponyo – Uma Amizade que Veio do Mar” é daqueles filmes que agradam a família e faz refletir sobre o verdadeiro amor e de aceitar a pessoa amada do jeito que ela é. Embalado por um espetáculo de cores, Hayao Miyazaki ensina novamente que através do olhar das crianças é que podemos observar melhor a pureza e a fantasia que estão ao nosso redor.

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Título Original: Gake no Ue no Ponyo
Direção: Hayao Miyazaki
Elenco: Yuria Nara, Hiroki Doi, Jôji Tokoro, Tomoko Yamaguchi
Duração: 101 min
Ano de Produção: 2008
Estréia: 23 de julho de 2010
Nota:

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